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Você
pode ser, desde que não seja gay”. Esta é uma das afirmações
do psicólogo Fabrício Viana, autor do livro O ARMÁRIO, sucesso de
vendas entre o público gay. No bate-papo a seguir, Fabrício ainda
critica todas as religiões, fala sobre sua vida corrida, dos
próximos trabalhos e responde à nossaRapidinha.
Fabrício, você
nasceu na pequena (e linda) cidade de Blumenau (SC). Sofreu algum
preconceito na vizinhança? Você mora em São Paulo,
certo?
Não. Vim para
São Paulo com três anos de idade. E, mesmo em São Paulo, nunca
sofri nenhum tipo de preconceito até hoje. Talvez por eu não ser
tão “afetado”, isto é, não dê tanto na cara que seja
gay. Isso é um diferencial na sociedade machista onde “você
até pode ser gay, desde que não seja gay”. Ridículo,
mas...
Sua formação é
psicologia. De alguma forma isso te ajudou na sua aceitação ou
nunca teve problemas com
homossexualidade?
Fiz psicologia
porque amava a área de RH e também porque buscava um conhecimento
maior do ser humano. Entretanto, a descoberta da minha
homossexualidade se deu junto ao curso. E na psicologia, até hoje,
pouco se estuda o tema na sala de aula. E quando se estuda, ainda é
com tons preconceituosos de professores que muitas vezes não
entendem nada do assunto. Isso é lamentável. Pois são pessoas que
irão se formar, ter pessoas homossexuais em suas clinicas e não
saberão o que fazer (com seus preconceitos internos) durante o
processo terapêutico.
Quanto a ajudar na minha aceitação, li muitos livros sobre
sexualidade e homossexualidade durante o curso de psicologia.
Juntando todos, não dá um. São poucos os que me
ajudaram.
Nunca
compreendi por que muitos críticos abominam a palavra
homossexualismo...
O problema é
histórico. Quando a homossexualidade foi considerada doença pela
ciência, foi utilizado o termo homossexualismo. Como hoje ela não é
mais doença, para “esquecermos o passado”, o termo foi
mudado para se livrar deste estigma. Hoje muito se usa
homossexualidade, homoerotismo ou homoafetividade. A diferença de
utilização dos termos é tão grande (homossexualismo = doença,
preconceito, perversão) que se você fizer uma pesquisa
no Google com a
palavra “homossexualismo”, a maior parte dos textos
encontrados será de sites religiosos condenando a homossexualidade.
Então, o problema é muito mais grave do que imaginamos.
Além
do blog que você
mantém, quais suas outras
atividades?
Tenho um
problema grave. Faço muitas coisas ao mesmo tempo. Tenho meu
trabalho “assalariado”, cuido de um servidor dedicado
todos os dias, escrevo artigos, estou escrevendo meu segundo livro,
produzo a TVTudo, apresento um
quadro GLS todo domingo
pra a baixada santista no programa Mulheres Dez, tenho outros
projetos pra comunidade onde o amigo André Luiz me ajuda pra
caramba, entre outras coisas. Ultimamente, ando trabalhando até
sábado e domingo. Isso não é muito bom. Mas, faz
parte!
Então você
está trabalhando em outro livro?
Sim, sobre
potência orgástica. Como ter um orgasmo (gozo) com qualidade, forte
e intenso, onde você goza com o corpo inteiro e não com os órgãos
genitais (coisa que a maioria faz). O livro seria escrito apenas
para o público gay, meu público, porém, uma jornalista hétero, que
conheci no Orkut, me perguntou se
isso era viável para qualquer tipo de relacionamento. Eu disse que
sim. Ela recomendou: amplia então, faz um livro para todos, assim
você amplia as pessoas que te conhecem. Eu pensei, ótimo. Então,
este é o próximo livro. Depois dele, tem um de contos, um de
ficção, enfim. Se eu não tivesse tantos projetos, e meu dia-dia,
passaria o dia escrevendo.
Como consegue
administrar seu tempo com tantos
compromissos?
Não consigo.
Final de semana agora estou indo para Cascavel, no Paraná,
palestrar. Fico três dias lá, volto e no dia seguinte, vou para
Minas, também palestrar sobre homossexualidade. Pergunta se eu
parei para pensar ou planejar o que irei falar com calma? Nada!
Tudo vai ser pensado no caminho. A parte boa, claro, é que tenho
muita coisa para falar. Mas, aparentemente, eu funciono “no
automático” e as coisas vão saindo. Faço sempre uma
programação superficial de tudo, para não me perder,
claro.
Como surgiu
“O armário”?
O Armário
X (www.armariox.com.br) é um excelente site pra ajuda. Mas não completo. Outros
projetos meus, também ajudam, mas não tanto. Eu queria produzir um
texto enorme, com tudo o que eu estudei sobre a homossexualidade,
misturando com uma autobiografia, e que fosse
“funcional”, simples e prático. E ai veio a idéia de um
livro. Porém não queria uma cartilha, para baixar na Internet,
queria uma produção, um livro de verdade e com fins lucrativos
também. Por que não? Ai surgiu O ARMÁRIO. Eu
pensei em colocar o título dele de “Saindo do Armário”, mas, como muitos iriam ler escondido da família,
achei melhor uma capa e um título mais “discreto”. E
ficou assim!
Ele está
esgotado, apesar das vendas apenas
pelo site.
Qual receita para tanto sucesso?
Boca-a-boca?
A produção é
independente. Significa que tudo foi feito pelo
autor. Site, divulgação,
contatos, imprensa, enfim, é um trabalho danado, porém, o retorno é
maior. Hoje, com a primeira edição esgotada, eu fico muito feliz de
não ter feito por uma editora. A receita do sucesso? Não sei. Não
sou bom em literatura e o livro não é nada literário. Escrevi o que
quis, o que achei melhor. E as pessoas poderiam gostar ou não. Se
não gostassem, já era. Iriam comprar, ler algumas páginas e
encostar ele em algum lugar. Entretanto não foi isso que aconteceu.
As pessoas que tiveram acesso, leram, releram, emprestaram para
amigos, parentes, familiares, enfim, realmente gostaram da leitura.
E eu me espantei pelo público que conquistei. Héteros, mães de
filhos homossexuais, senhores de idade, adolescentes, bissexuais,
esposas de maridos “possivelmente gays” (risos), entre
muitos outros. Gostei da experiência.
Em um dos
trechos você comenta algo interessante quando conhecidos e amigos
homossexuais dizem que o “mundo gay” é podre e ninguém
quer saber de relacionamentos. De certo ponto, isso é
verdade...
Então, esse
trecho é seguido de outro trecho, em que eu explico que isso é
fruto da homofobia internalizada e do negativismo homossexual.
Aquele conceito negativo que todo homossexual carrega no
inconsciente mesmo depois de assumido. Onde ele só consegue ver
coisas negativas sobre si e sobre seus semelhantes. É um pouco
complexo, mas neste trecho eu falo e deixo claro que o mundo
heterossexual é tão “podre” e tão promiscuo quanto o
gay. Não existe diferença. Só uma tendência do próprio homossexual
de ver as coisas da maneira mais negativa possível quando o assunto
é homossexualidade. Tudo pro gay é ruim, podre e promiscuo. Ele não
consegue enxergar nada além disso.
Homossexualidade, religião e psicologia podem caminhar
juntas?
Homossexualidade e psicologia sim. Religião, se não
inventarem nenhuma nova nos próximos minutos, NÃO. Sou ateu
convicto. E, embora respeite até religiões “ditas gays”
(e tenho pessoas que considero muito dentro delas, inclusive amigos
pastores), eles sabem que eu não concordo com nenhuma delas. Sou do
tipo que acha que religião é veneno. E por isso sou muito criticado
e condenado por vários gays (alguns piores que os fanáticos
religiosos). Eu acredito que as pessoas só buscam Deus para
sentirem conforto interno, ter forças, superar frustrações, entre
outras coisas. Eu aprendi que, não preciso buscar Deus, pra ter
forças, conforto interno, superar coisas, etc. Eu me sinto completo
sem depender ou precisar de algo externo. Mas ai, como também cito
no O ARMÁRIO, é uma coisa minha. Não obrigo ninguém a ser ateu. Mas
fiz questão, no livro, de traçar toda a história religiosa e
condenativa da homossexualidade pela religião. Sendo uma das
grandes “perturbadoras” no desenvolvimento da pessoa
homossexual.
Para onde
costuma sair quando quer descansar, se
divertir?
Vou sempre
onde possa ver rostos conhecidos. Geralmente estou na Tunnel ou
Blue Space. Não sou de ficar conhecendo novas boates. E,
ultimamente, prefiro sair mais para teatro, cinema, shopping ou
ficar em casa.
É fácil sair
do armário?
Não. Não é e
nunca foi. E como eu digo, sair do armário não é sair gritando por
ai que é gay e pronto. Precisa, e isso é super importante, se
livrar da homofobia internalizada e do negativismo homossexual. Não
existem estatísticas, mas nas minhas observações, 99% dos
homossexuais sofrem disso. Assumem-se, mas continuam com piadas,
brincadeiras e muitas outras coisas onde eles se difamam (ou seus
semelhantes) sem perceberem. Isso é terrível. Por isso eu recomendo
meu livro pra quem é assumido também. E se não fosse o meu,
qualquer outro que abordasse esse importante
tema.
Você está
apaixonado?
Sim, por
enquanto (risos), pela mesma pessoa há quatro
anos.
Rapidinha com
Fabrício Viana
Cidade
preferida: Era o Rio de
Janeiro, hoje prefiro alguma do Nordeste.Salvador, Fortaleza, enfim.
Melhor
momento: Olhar para traz
e ver que o que você conseguiu, não foi de um dia pro
outro.
Pior
lembrança: Já ganhei
muito dinheiro. E não guardei nada. Hoje é
diferente.
Um
sonho: Ter no mínimo,
uns cinco livros escritos daqui no máximo cinco
anos.
O
beijo: Gostoso. Do meu
amor.
A
traição: Pode ser vista
de várias formas.
A
privacidade: Algo que eu
preso muito hoje em dia.
Trabalho é...? Minha vida.
Uma
palavra: Obrigado.
Aprendi que ela é fundamental em tudo. Obrigado a você, pela
entrevista, aos leitores, amigos e todos que acompanham meu
trabalho.
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